|
Araguaia,
Os Caminhos da Emoção.
Por
Alvaro Coutinho.
A primeira vez que vim ao vale do Araguaia, em 1972,
fiquei simplesmente deslumbrado, com os peixes
gigantescos, com o cenário impressionante, com as
coisas e gentes desse paraíso terrestre.
De lá para cá, a região viveu dias de
glória e de preocupação, mas o rio tem conseguido
sobreviver a uma série de problemas e ações que já
reduziu a lenda diversas regiões brasileiras, outrora
excelentes destinos pesqueiros. Quem se lembra do São
Francisco, nos idos antes de 1967 até início dos
anos 70? O Paranazão famoso - o veloz rio dos
Dourados e Surubins - que divide São Paulo do Mato
Grosso do Sul e faz a fronteira oeste do Paraná,
inclusive com o Paraguai? Hoje, do ponto de vista da
pesca são uma caricatura do que já foram ou agonizam
tristemente. O próprio Pantanal, possivelmente a
melhor região pesqueira do Brasil, requer atenção
e, em algumas localidades, já pede socorro.
A Amazônia, em passado bastante recente,
assustou com uma seca sem precedentes e a consequente
mortandade de milhares de peixes, vista com assombro,
no noticiário das TVs.
Tudo isto, aponta para um trilheiro que impõe um
refletir sério e coerente sobre que tipo de futuro
queremos legar a nossos descendentes. Quando em meados
de 2000, o Governo de Goiás, através de sua Agência
Ambiental, proibiu o transporte de peixes em todo o
território goiano, colheu todo mundo de surpresa. Foi
uma medida arbitrária, truculenta e imposta de forma
antipática e autoritária. Mas, apesar de conter até
mesmo laivos de ilegalidade no que tange ao Araguaia,
a medida terminou por trazer algo de positivo em seu
bojo:
serviu para chamar a atenção ao problema da preservação
ambiental e da sustentabilidade em relação à pesca
indicriminada.
Seja ela (a pesca) profissional ou dita amadora, há
inegavelmente a necessidade de serem determinados
limites que possibilitem a exploração turística sem
o comprometimento da biodiversidade e a possibilidade
de manutenção dos estoques pesqueiros na região ou
manancial considerado. Assim é que, com o início da
implementação de uma conciência que privilegia a
pesca esportiva por excelência, com a adoção de uma
filosofia ambientalista e promovendo a prática do
"pesque e solte", vemos uma recuperação
gradativa do Araguaia, que só não é maior porque o
apelo comercial aliado a uma exploração turística
centrada unicamente na pesca enseja alguma resistência
a essa nova postura.
É uma problemática sobretudo cultural e como tal, não
se soluciona apenas com legislação e fiscalização
- não raro, deficientes e confusas -, mas sim com
formação que deve se iniciar no berço, passar pela
escola - educação formal - para, aí sim,
constituir-se em natural forma de preservar o
ambiente.
Pesca-se, fotografa e solta o
peixe. Não porque haja uma lei que o imponha, ou um
fiscal que garanta isto, mas porque a educação e
formação moral de cada um imponha isto como uma
conduta que irá garantir o amanhã sadio da
humanidade. E assim, já voltamos a ver a Piratinga
saltar no Araguaia, no final das tardes. Em qualquer
época já é possível capturar a Pirarara - uma
pesca bruta e emocionante para o aficcionado -. Ver os
extensos cardumes de volta e se emocionar com a
captura de espécies nobres, algumas apenas
encontradas por estes lados.
Aos poucos vai-se formando uma infra estrutura capaz
de oferecer suporte a uma atividade turística que não
se esgote na pesca, mas que aproveite a beleza do período
das águas - a cheia do Araguaia trazendo pessoas para
se deliciar com a contemplação da renovação da
fauna e da flora locais.
Isto é a comunhão necessária entre o
homem e a natureza. É por aí que precisamos
caminhar. Caminhos da emoção, combinados com a
preservação imprescidível.
A humanidade com certeza agradecerá.
|